segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

“Para jogar no Feirense é preciso ter paixão e uma cultura muito própria”

Com quase vinte anos dedicados ao Clube Desportivo Feirense, Nuno Manta Santos chegou a técnico principal do clube para substituir José Mota. Nas suas mãos está a responsabilidade de conseguir algo inédito na história do Feirense, alcançar a manutenção da Primeira Divisão.
Uma vida desportiva dedicada ao Feirense. Esta é a oportunidade porque tanto esperava?

Tenho 38 anos, desde os 19 que trabalho para o Clube Desportivo Feirense. Comecei em 1996/97 a trabalhar para o clube, nos iniciados, com o mister Adolfo Teixeira. Desde aí até agora que a minha vontade de trabalhar com o Feirense tem sido grande. Tem-se conciliado essa vontade. Houve momentos bons, outros menos bons, mas gosto de trabalhar no Feirense. Se me perguntam se atingi um objectivo profissional…sim, um dos meus objectivos era ser treinador principal do Feirense. Tinha idealizado ser treinador do Feirense e preparei-me para isso. Surgiu a oportunidade e quero agarrá-la com as duas mãos.

O que foi decisivo para que a oportunidade surgisse? Os resultados, a manifestação de carinho dos adeptos ou o conhecimento do seu trabalho por parte da SAD?

Na minha opinião foi o conjunto desses factores. Primeiro, é com muita pena que vejo o José Mota sair da equipa técnica do Feirense. É um bom treinador, aprendi muito com ele apesar do curto espaço de tempo que trabalhámos juntos. É verdade que os resultados não apareceram, mas é a tal questão da bola que vai ao poste e entra e a bola que vai ao poste e não entra. Mas em termos de trabalho, dedicação, empenho, nós nunca tivemos nada a apontar a este plantel. A oportunidade surge, inicialmente interinamente para fazer a transição para o novo treinador. Comecei a trabalhar com o plantel, tivemos o jogo em casa contra o Paços de Ferreira e vencemos, a equipa esteve bem. Depois seguiram-se dias sem saber se vinha treinador ou não, mas a administração pediu-me para continuar a fazer o trabalho que tinha desenvolvido até ali. A SAD foi vendo o meu trabalho, o plantel foi reagindo bem e os resultados apareceram, o que é fundamental. Desde sempre referi que a nossa vida (de treinador) vive à custa de resultados. Se forem positivos toda a gente fica satisfeita, até o plantel ganha confiança. Foi o que se foi passando. Fomos ao Porto e fizemos um bom jogo. Conseguimos empatar ― a primeira vez que o Feirense não perde em casa de um ‘grande’ ―, continuamos a trabalhar, falou-se em muitos nomes, entre os quais o meu. Mas a determinado momento a SAD decidiu apostar em mim para técnico principal e eu aceitei. Sei que é um risco muito grande na minha ainda curta carreira, a responsabilidade é enorme porque se conseguir manter o clube na primeira divisão é a primeira vez que acontece.

Seria um feito inédito…

Lá está, é uma grande responsabilidade. Todos os feirenses estão à espera disso. Mas é importante que os feirenses também tragam um pouco dessa cultura e identidade para o jogo, para o jogador sentir isso. Eu falo muitas vezes no balneário que precisamos criar a nossa identidade, mas ela também tem de ser transmitida de fora para dentro. Eu costumo dizer que o nosso adepto não se importa que se falhe um passe, uma oportunidade de golo. O que os feirenses não perdoam é que o jogador não tenha paixão pelo clube. Para jogar no Feirense é preciso ter paixão e uma cultura muito própria. É um clube humilde, simples, trabalhador e o jogador tem de personificar essa cultura para dentro do campo.

Sente-se preparado para tamanho desafio?

Penso que com a experiência acumulada ao longo deste tempo, em termos de currículo académico, tenho o quarto nível de treinador e vou a acções de formação para me manter actualizado, profissional, fui adjunto de vários treinadores que passaram por cá, aprendi muito com todos eles, estou preparado. Mas tenho a noção que os resultados é que vão ditar se estou ou não preparado.

Houve uma manifestação massiva dos adeptos para que fosse o escolhido para treinador principal. Esse factor é somente vantajoso?

É essencialmente uma responsabilidade muito acrescida. Mas também sei que os mesmos adeptos que quiseram que eu fosse o treinador principal podem, daqui a duas ou três semanas, estar a dizer que devo ir embora. O futebol é muito fértil nisso. Defino tudo isto com uma única palavra: futebol.

O que lhe pediu a SAD, apenas a manutenção?

A SAD pediu-me unicamente o objectivo da manutenção. Espero e quero não deixar para as últimas jornadas a garantia da manutenção. Aliás, deixo aqui um apelo aos adeptos para nos apoiarem nos próximos três jogos em casa [um deles já foi, entretanto, realizado ―empate a zero com o Vitória SC]. Nos próximos quatro jogos temos três em casa que, do meu ponto de vista, se calhar são os mais importantes da época. Não fazendo pontos nestes quatro jogos torna-se complicado.

Fazia parte da equipa técnica de José Mota. O que falhou com o anterior treinador?

Foram apenas os resultados. Mas essas perguntas devem ser feitas aos jogadores.

Ainda assim, o Feirense de Nuno Manta é diferente do de José Mota. O que mudou e o que ainda falta mudar?

É preciso perceber que no meu primeiro jogo [frente ao Paços Ferreira] o Ricardo Dias e o Tiago Silva tiveram de ficar de fora porque estavam castigados. Por isso, obrigatoriamente tinha de haver mudanças. Entrou o Cris e o Fabinho. Em relações ao ataque, saiu o Tasos [Karamanos] e entrou o Platiny por questões físicas e tácticas. O Luís Machado entrou porque fecha bem o corredor, cruza bem e é forte no um para um, características que eu achava serem importantes para aquele jogo. Para mim jogam sempre os melhores. Não tenho um 11 base, aqueles que entrarem para mim são os melhores. Não sou um treinador de fazer muita gestão. O jogador de futebol quer é jogar. A responsabilidade de não jogar passa até mais pelo jogador. Se não se sentir bem deve-o dizer. Eles foram contratados para jogar e querem jogar. Os melhores têm de estar lá dentro. É o meu ponto de vista. Um jogador não pode estar à espera dos jogos da Taça da Liga ou da Taça de Portugal para jogar. Eles têm de tentar competir para tirar o lugar ao colega que está a jogar. Quem quer minutos tem de os conquistar. Agora podes mudar porque precisas alterar o sistema ou em função do que precisas para determinado jogo.

Já conseguiu incutir algumas das suas ideias na equipa? O que falta fazer ou alterar?

Neste momento o qua mais me preocupa é introduzir ideias em termos de comportamento individual e colectivo. Começa a haver ideias diferentes e maneiras diferentes de estar dentro de campo não só em termos individuais, mas também colectivos. Preocupa-me muito a organização defensiva, não sofrer golos. Temos 32 golos sofridos, mais os das Taças, são muitos golos sofridos. Um dos principais objectivos são defender bem, a organização defensiva, a bola parada defensiva, não sofrer golos e estarmos equilibrados. Se não sofrermos golos, não perdemos.

Como se define enquanto treinador e enquanto líder?

Sou um líder muito simples de se trabalhar, trabalho é trabalho e ‘copo é copo’. Sou uma pessoa que gosta muito de brincar, com boa disposição, mas a partir do momento em que entro aqui no clube para o treino ou para o campo — seja treino, ginásio, recuperação, piscina ou o que for —, aí já estamos a trabalhar e nós, como profissionais, temos de ser 100% responsáveis, para ninguém nos acusar de não sermos profissionais. A pior coisa que pode acontecer é um atleta dizer que não és profissional ou que és mau profissional. Eu faço tudo para que os atletas nunca possam dizer que eu sou um mau profissional. Passar a imagem de bom profissional e competente é completamente diferente daquela imagem de mau profissional, de facilitismos. Há liberdade, mas a partir do momento que começamos o nosso trabalho aí temos de ser profissionais. É como o médico, pode até brincar no caminho para o hospital, mas quando lá chega não vai brincar com os doentes. Há boa disposição e brincadeira a equipar, no balneário, no autocarro até chegar ao campo, mas quando entramos no momento do apito, que é para a função, é o foco, é o trabalho, aí não facilito e dou algumas duras e chamo à atenção.

Quais são as lacunas do plantel? Que sectores gostaria de ver reforçado?

Em relação ao plantel está a ser analisado, estamos a ponderar várias decisões. Todos temos consciência que o plantel necessita ser reforçado, mas não com muitos atletas. No meu ponto de vista, precisamos de quatro atletas que venham acrescentar qualidade e, acima de tudo, com carácter. Vamos entrar numa fase muito decisiva do nosso campeonato e além de ter qualidade como jogador de futebol, terá de ter carácter e ser sério porque sabemos como é o Clube Desportivo Feirense. Além de tudo terão de ser atletas com alguma experiência para as próximas jornadas e para o resto de campeonato que vamos ter. Reunir todas estas características é complicado, por isso não é fácil encontrar. Mas é evidente que temos situações que teremos de melhorar ou reajustar em termos do sector ofensivo. Está identificado não só pela equipa técnica, mas por toda a gente. Precisamos de reforçar o sector ofensivo e o sector de meio-campo porque acabamos de perder um atleta [Semedo].

A saída do Guima foi opção técnica?

Foi opção técnica e administrativa. Foi um conjunto de factores que foram colocados em cima da mesa.

É possível que haja mais saídas?

É possível que haja mais saídas, assim como empréstimos ou talvez regressos.

O Etebo está a contar com ele? Fala-se do assédio de clubes ingleses poderosos…

É muito bom para o Etebo se falar noutros clubes, é muito bom para o clube falar-se de outros clubes interessados em jogadores do Feirense. Pelo que sei o Etebo é jogador do Feirense até ao final do mês de Maio, é evidente que se chegar aqui um clube que pague e se a SAD entender que deve vender o atleta, nada a fazer.

Falou em regressos, o Pedro Santos e o Nandinho que já foram seus atletas nos juniores, são possíveis regressos?

Estamos a equacionar todas as situações possíveis para o Clube Desportivo Feirense. Não só desses dois atletas, como outros também ligados ao Feirense que estão emprestados ou estiveram ligados ao Feirense. Vamos observar e analisar tudo o que o mercado nos pode dar ou não.

Sendo um treinador com um percurso ligado à formação do Feirense, é possível que haja algum atleta das camadas jovens a poder representar o Feirense? O João Tavares, por exemplo?

O João Tavares chegou a aquecer no jogo contra o Belenenses para a Taça da Liga, poderia ter entrado mas acabou por não entrar. Desde que tenham qualidade e competência podem lá chegar. Eu não ligo às idades, a experiência, nem a rótulos porque não é isso que vai definir um jogador. O que eles fizeram no passado não me interessa muito, interessa-me saber o que faz hoje e amanhã.

Que análise faz à Primeira Liga?

Na minha opinião, a Primeira Liga está muito competitiva neste momento e ainda se vai tornar mais competitiva depois das aquisições de Janeiro. As equipas estão-se a reforçar bem, houve mudanças de treinadores, de modelos de jogo e as equipas que subiram estão a arriscar tudo para se manterem na primeira Liga. Por isso vejo um calendário muito competitivo para o Feirense e um campeonato muito competitivo. Tirando o F.C. Porto, o S.L. Benfica e o S.C. Portugal, que continuam a ser as equipas mais fortes, mas até estas equipas têm tido mais dificuldade nos seus jogos. A estrutura Benfica é muito forte, não é só a equipa, é a estrutura. Depois o F.C. Porto, Sporting, Vitória de Guimarães e Sporting de Braga são equipas com um orçamento diferente. As restantes são todas muito equilibradas. Também há equipas que estão a subir de forma devido à competência dos treinadores e à competência do plantel. Do sexto lugar para baixo vejo equipas extremamente competitivas em que tanto podes ganhar fora ou em casa. Os resultados são sempre de tripla. Os jogos, por vezes, definem-se por pormenores ou situações pontuais.

O futuro será no Feirense ou já pensa em algo mais?

O futuro é um dia de cada vez. Neste momento, para mim é um dia de cada vez, sei que sou ‘pequenininho’ e que ainda estou a começar. Há muita gente que ‘morre à nascença’ e eu não quero que isso me aconteça. Por isso é um dia de cada vez e não quero estar a fazer grandes projectos ou planos, como equipas grandes nacionais ou estrangeiras.

Destaques

“Espero e quero não deixar para as últimas jornadas a garantia da manutenção”

“Preocupa-me muito a organização defensiva, não sofrer golos”

“Precisamos de reforçar o sector ofensivo e o sector de meio-campo”

in: jornal CORREIO DA FEIRA

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