sexta-feira, 21 de abril de 2017

Manta à espera da matemática para mudar história do Feirense

Está iminente a impressão a ouro de uma nova página no currículo de um clube que nunca conseguiu fixar-se na Liga. O próximo adversário é o FC Porto, mas pode até nem ser preciso pontuar
Aos 38 anos, Nuno Manta está a viver um sonho ao serviço do clube de sempre

A cinco jornadas do fecho das contas do campeonato, apenas o monstro calculista da matemática mantém o treinador Nuno Manta Santos em suspenso, a aguardar autorização oficial para dar início aos festejos da tão desejada permanência do Feirense na Liga, um feito inédito no historial do clube.

A continuidade do emblema do castelo entre os grandes é — mesmo depois das últimas duas derrotas consecutivas, ante Sp. Braga e Arouca — um dado adquirido, sem discussão possível, conforme garante a prática e a própria história da competição, que permite transformar números frios em probabilidades imbatíveis.

Os 35 pontos somados no final do jogo frente ao Belenenses, há quase três semanas, no Estádio do Restelo — onde Nuno Manta ainda foi a tempo de reencontrar Quim Machado, o técnico que lhe “roubou” o sonho de ser o número um do Feirense na época de 2012-13 — afastaram desde logo o espectro do cenário mais temido pelos clubes confinados à luta pela sobrevivência na Liga dos “grandes”. Com 15 pontos de vantagem para a dupla que tenta emergir da linha de água, a calculadora do Feirense espera a ordem para executar uma última operação.

Mas antes da prova real, há que vigiar os números do Nacional da Madeira, já que relativamente ao Tondela de Pepa — um dos responsáveis pelo impulso que devolveu os “fogaceiros” à elite do futebol português —, o Feirense ganha amplamente no confronto directo, tendo a equipa da Feira saído vencedora dos dois confrontos para a Liga (2-1 em casa e 1-0 em Tondela).

A derrota do Nacional, na última ronda — formação que amanhã joga em Tondela, sem margem para erro —, ajudou a simplificar as contas, embora possa ainda obrigar a um pequeno compasso de espera, atendendo à deslocação do Feirense ao Dragão, no domingo, para defrontar o FC Porto. É que neste caso são os madeirenses que estão em vantagem no confronto directo, com uma vitória e um empate.

Porém, este parece ser um exercício de puro masoquismo, pois nem a matemática pode ser tão cruel ao ponto de evitar o sucesso da hashtag “ViemosParaFicar”, trampolim motivacional que ajudou a operar uma incrível reviravolta sob o comando técnico de Nuno Manta, o eterno adjunto da casa que, finalmente, saiu da sombra para mudar radicalmente a face da equipa da Feira. Ao ponto de ter já oficializado a renovação do contrato até 2019, após acordo anunciado nesta semana com os investidores nigerianos.

O início do conto de fadas

Uma medida natural à luz dos resultados e das exibições elogiadas por adeptos e críticos. Nas primeiras 13 jornadas do consulado de Nuno Manta, registe-se, só a troika Nuno Espírito Santo (33), Rui Vitória e Jorge Jesus (30) fez melhor do que o treinador do Feirense (24). O mesmo Feirense que à 14.ª jornada, à porta da noite de Natal, ocupava o penúltimo lugar, com magros 11 pontos, fruto de três vitórias e dois empates, e que surge agora transfigurado e absolutamente irreconhecível.

As cinco derrotas consecutivas no campeonato, que ditaram o afastamento de José Mota, ou os dois pontos somados em 27 possíveis (mais eliminação na Taça de Portugal), revelavam uma equipa esgotada, sem terra firme no horizonte, afundada numa defesa com 30 golos sofridos, o triplo dos marcados.

Quadro nada animador, mas que rapidamente deu lugar a uma espécie de conto de fadas, com apenas três derrotas (Sporting, Benfica e Boavista) em 13 rondas, garantindo um salto de oito lugares na classificação, graças aos 24 pontos conquistados. Tudo obra de um grupo que se uniu em torno do treinador abraçado e acarinhado pelos próprios jogadores, dispostos a desafiar todos os arquétipos do “mister” tradicional, mesmo correndo o sério risco de resvalar pela quinta vez para o patamar inferior.

A arte de saber esperar

Nuno Manta, forjado numa lógica de trabalho, sacrifício e humildade, racionalizou sem problemas o desafio, afirmando que seriam os resultados a determinar se os adeptos do Feirense viriam um dia a gostar dele. Hoje sabemos a resposta. O segredo é, apesar de menos visível, bem perceptível. A história de vida do técnico de 38 anos, 20 dos ao serviço do Feirense, só podia oferecer este tipo de desfecho e recompensa.

Passar, em apenas dois anos, de adjunto que acumulava turnos a contar rolhas numa corticeira da região para treinador-revelação do principal campeonato português, assegurando a permanência histórica e inédita do Feirense na I Liga, compensa plenamente todas as dores de crescimento de um guarda-redes de andebol desmoralizado pelos avançados nos tempos de Sanjoanense… mas que, nem por isso, teve medo de experimentar uma baliza ainda maior, em Cinfães, e de se aventurar nos pelados distritais como médio esforçado, mas condenado a estudar a fundo a arte de dar a táctica para conseguir conquistar a braçadeira

Nos primeiros 13 jogos de Nuno Manta, apenas Nuno Espírito Santo, Rui Vitória e Jorge Jesus somaram mais pontos que o Feirense

in: jornal Público 
Augusto Bernardino

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