terça-feira, 9 de maio de 2017

«Renovei também para provar que tudo isto não foi obra do acaso»

Após duas décadas ligado ao Feirense, nas camadas jovens, abraçou aos 38 anos o primeiro projecto como treinador principal. Uma entrada para a história, já que alcançou uma manutenção inédita. Feito que lhe valeu a renovação. Mas Nuno Manta que mais e está empenhado em provar que não é (apenas) o treinador do momento...

Renovou recentemente até 2019 com o Feirense. Quais as razões que o levaram a manter um projecto iniciado prematuramente a meio desta temporada?
- Antes de mais era algo que pretendia. Não apenas para consolidar o meu trabalho mas também o meu nome enquanto treinador profissional. A partir do momento em que entrei para um clube que está a reestruturar-se  e com o qual me identifico, pelas suas ideias, não tinha como recusar. E, claro, também para provar que tudo o que foi feito, tudo isto, não se foi uma obra da acaso...

- Chegou a receber outras propostas para novos projectos?
- Falou-se de muita coisa, houve muitos boatos, muita conversa no ar, mas de concreto apenas surgiu este convite do Feirense.

- Concorda quando muitas pessoas o consideram o treinador do momento na Liga?
- É isso que quero deixar de ser para passar a ser um dos grandes treinadores portugueses. Consolidar o meu trabalho, tanto a nível nacional, como internacional. Mas isto no futebol é um passo de cada vez. Basta uma bola embater no poste e tudo muda. Vou continuar a consolidar o meu nome, sei que tenho um longo caminho pela frente.

-  Quem foram os grandes responsáveis pelo bom percurso da equipa. Treinador ou jogadores?
- Neste caso, olhando para tudo, os meus grandes 'padrinhos' na minha curta carreira foram os jogadores que me ajudaram muito, mas também os responsáveis do clube que acreditaram sempre no meu trabalho. Cabe-me a mim, agora, consolidar toda essa confiança com bons resultados.

- O recente empate frente ao FC Porto, que pode ter sido decisivo nas contas do titulo, teve algum sabor especial?
- Não. Nada disso... Como sempre disse, respeitamos todos os adversários e esse foi um jogo como todos os outros. A nossa grande satisfação nesse jogo foi o facto de a equipa ter garantido matematicamente a manutenção. Nada mais do que isso.

- Kunle Soname, presidente da SAD, disse que gostaria de ver o Feirense numa competição europeia. É algo que está também na sua ideia?
- É legitimo, olhando para a ambição que aqui existe, pensar-se assim. Resta-me respeitar e tentar cumprir com todas essas mesmas ambições, sendo que a curto prazo a grande meta passa por consolidar o clube na Liga.

- Face ao bom desempenho da equipa, está preparado para perder muitos jogadores influentes para a próxima época?
- Contamos, pelo menos, manter 60 a 70 por cento do actual plantel. O clube vai começar a iniciar um processo segurando alguns dos jogadores que consideramos mais importantes. Estamos a trabalhar nisso.

 DAS MANHÃS NA FÁBRICA ÀS AULAS À TARDE...

- O facto de conhecer os jogadores foi a base principal para o sucesso da equipa?
- Sem dúvida. Conhecer os jogadores foi uma enorme mais-valia. Não só em termos técnicos e tácticos, como também a nível psicológico. Isso ajuda muito na forma de como motivar, trabalhar com eles foi fundamental para o crescimento da equipa.

- Há pouco mais de dois anos trabalhava numa fábrica de cortiça e dava aulas. Foi uma ascenção que poucos imaginariam...
- E ainda jogava futebol no Inatel [risos]... Era uma rotina com desgaste. Trabalhava das oito da manhã às 16 horas, na fábrica. Depois seguia para dar aulas das 16.30 às 17.30, numa escola primária em Sanfins.Por fim seguia para os treinos dos juniores do Feirense.

- Tem lidado bem com o mediatismo?
- Só temos noção disso quando começamos a andar na rua e as pessoas dizem: 'Olha vai ali o treinador do Feirense; vai ali o Nuno Manta Santos'... Passas a ver que deixas de ser aquela pessoa que era apenas mais um e passas a ser o treinador do Feirense.

- Falemos do campeonato. A permanência, a um nível simbólico depois de um inicio complicado, valerá quase tanto como a conquista de um titulo?
- Foi momento histórico, a primeira vez que o Feirense conseguiu manter-se, pelo menos todos ficarão com os seus nomes gravados na memória do clube. Na história só daqui a 10 ou 20 anos é que se sentirá a importância deste feito. Ainda não temos noção do que aconteceu mesmo. Queremos é que seja a primeira de muitas.

- Foram mesmo os jogadores que pediram a sua entrada para o comando técnico?
- Depende de como querem interpretar as coisas [risos]. Os jogadores bem podem pedir mas SAD é quem tem sempre a palavra final. Havia uma simpatia entre mim e os jogadores, pela maneira de estar e trabalhar, mas daí até serem os jogadores a decidir... vai muito.

- Havia essa receptividade do plantel, então?
- Existia receptividade. Os jogadores viam que podia ser uma boa opção. Mas até ser a opção que exigiam não é verdade...

- Quando soube que passaria a treinador principal?
- Tínhamos acabado de jogar no Dragão, numa quinta-feira à noite, 29 de Dezembro, e na sexta de manhã estava projectado um treino um treino de manhã. Ligaram-me da SAD para ir almoçar com eles... E quando fui almoçar não sabia ao que ia. Poderia ser para ficar mas também para ser despedido [risos]. Quando me perguntaram se queria agarrar a oportunidade não hesitei. Pensei que seria o meu momento. Era agora ou nunca. E aproveitei...

- Como idealiza a equipa na próxima temporada?
- O Feirense está a criar bases para se consolidar na Liga. Estrutura do estádio, reformulação de vários departamentos... Está a evoluir para um clube de top.

- O que falta?
- Não muito... mas é preciso começar a dinamizar as várias pecinhas para o clube crescer.

A INFLUENCIA DE VÁRIOS TREINADORES

- As assistências nos jogos em Santa Maria da Feita estão com uma média positiva...
- É  um clube que precisa que a cultura Feirense seja transmitida pelos seus adeptos. A SAD tem vindo a desenvolver uma estratégia de trazer mais adeptos e houve um crescimento da taxa de ocupação. O que é muito bom para jogadores, fotógrafos, jornalistas, todos. Juntando tudo isto com vitórias, o adepto ganha vontade de se deslocar ao estádio.

- A manutenção está garantida. Existe alguma meta traçada até final do campeonato?
- Tentar fazer todos os pontos. É necessário uma cultura que tento passar aos jogadores. O Feirense terá de ganhar essa mentalidade. Dar, pelo menos, a imagem que tudo fizemos para tentar vencer. Isso é algo fundamental para o adepto, simpatizante, sentir orgulho na equipa.

- Tem apenas 38 anos. Considera-se um treinador moderno?
- Não gosto de comparações. Considero-me um treinador com as minhas ideias, com a forma pessoal de trabalhar, de pensar o jogo. Tudo isto evolui com o tempo.

- Mas tem referencia?
- Cada treinador é único. Gosto de vários treinadores a nível internacional, sigo o trabalho de muitos, tento apanhar algumas das suas ideias e transportar essas mesmas ideias para a minha metodologia de treino. Sem referir nomes, digo que tenho influencias de vários treinadores, internacionais e portugueses.

- Trabalhar num grande em Portugal é ambição?
- A ambição é ganhar todos os jogos, seja em que clube for. Só é bom quem ganha, por isso não me resta pensar de outra forma.

ideias de...
Nuno Manta, treinador do Feirense

Um grande?
"Trabalhar num grande do futebol português? A minha ambição passa por ganhar todos os jogos seja em que equipa for... Só é bom quem ganha, por isso não me resta pensar de outra forma

Manutenção
"Na história só daqui a 10 ou 20 anos é que se sentirá a importância deste feito inédito. Ainda não temos noção do que aconteceu mesmo. Queremos é que seja a primeira de muitas vezes

Experiência distrital
Ganhamos, por vezes, experiências de vida a nível distrital que não apanhamos a nível nacional. Momentos únicos que nos marcam e que aprendemos. Coisas que levei comigo para esta etapa

Foi guarda-redes e numa época sofreu... 115 golos
Nuno Manta nunca passou de clubes amadores enquanto jogador. Jogou na formação em Sanfins, mas entrou no desporto, curiosamente, através do andebol, modalidade que chegou a praticar na Sanioanense.

Mas até entrar na faculdade, aos 18 anos, ainda fez natação como federado e ginástica no Futebol Clube de Gaia. Durante todo este percurso - depois do Sanfins também andou pela Juventude Atlética Amigos do Cavaco (AF Aveiro) - teve uma época que o marcou. Como guarda-redes sofreu nada mais que... 115 golos numa época. «Isso tem uma explicação. Era guarda-redes no andebol, mas as balizas no futebol de 11 são bem maiores. Estava nos juvenis e os adversários eram muito fortes. Lembro-me de ter jogado contra o Ricardo Sousa que estava na altura na Sanjoanense», conta Nuno Manta, que, mais tarde, haveria de se tornar num médio-centro: «Fiz-me até um guarda-redes interessante, mas senti necessidade de experimentar ser jogador de campo.»

PERFIL
Ver futebol até do... Inatel
Nuno Manta é um verdadeiro apaixonado por futebol. Uma paixão que se estende mesmo quando está de folga. »«Gosto de ver futebol ao vivo. Desde o Inatel até à Liga dos Campeões. Adoro ver crianças a jogar, os miudinhos, tudo o que está ligado à formação. Fora isso, o tempo livre passo com a minha família. Tenho uma filha de oito anos, a minha esposa, enfim, tento aproveitar todos os raros momentos juntos», conta.

Adeus aos relvados após casamento
Chegou a jogar futebol, a nível amador, mas colocou um ponto final na carreira aos 29 anos, na altura em que... casou. «Já orientava escalões de formação, dava aulas e comecei a sentir dificuldades em ir aos treinos. Achei que não ia dar para tudo. Foi precisamente nessa altura que avabei por abandonar o futebol amador para me dedicar apenas e só ao futebol profissional», conta o treinador que já figura na história do Feirense.

BI
Nome completo
- Nuno Miguel Manta Ribeiro dos Santos

Data de nascimento
- 25 de Julho de 1978 (38 anos)

Naturalidade
- Oliveira de Azeméis

Percurso como jogador
- Sanfins (formação) e Juventude Atlética Amigos do Cavaco (AF Aveiro)

Percurso como treinador
Trabalhou nos juniores do Feirense, passou para adjunto nos seniores e actualmente é o treinador principal

in: jornal A BOLA
Entrevista de Miguel Mendes


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