terça-feira, 27 de junho de 2017

Manuel Teixeira: “Nunca pedi a nenhum treinador para ser campeão”

Ao falar do Feirense, é obrigatório falar de Manuel Teixeira. Basta olhar para os olhos do ‘senhor formação’ do clube fogaceiro para perceber a paixão existente pelo clube e pelas centenas de jovens que carregam o Castelo ao peito. “Os meus meninos”, como os apelida, até podem tornar-se campeões ao longo do percurso desportivo, mas o objectivo principal é formá-los como homens. Aos treinadores, parece não ser preciso exigir títulos. Foram seis os campeonatos distritais conquistados pelo departamento de formação na época transacta, algo difícil de igualar.
foto: Correio da Feira
Traquinas A, Benjamins B, Infantis B, Iniciados C e as duas equipas de Juvenis, A e B, embelezaram as vitrinas do Feirense com mais seis títulos distritais conquistados durante época desportiva recentemente concluída. Antes de esmiuçarmos os sucessos, escalão a escalão, treinador a treinador, não há como não falar de um dos principais responsáveis pelos mesmos. O ‘senhor formação’ do Clube Desportivo Feirense, Manuel Teixeira, chefia a directoria da formação do clube há 19 anos e há algo que afirma nunca ter pedido a nenhum dos muitos treinadores que passaram pelo Complexo. “Nunca pedi a nenhum treinador para ser campeão”, afirma, exaltando a necessidade de “não faltar nada aos treinadores” para atingir o sucesso. “É preciso dar-lhes o total apoio. Por trás da cortina existem directores que estão unidos e que dão apoio a todos os treinadores, independentemente do escalão”, afirma.

Seis títulos numa única temporada é obra. “Foi uma época de muito, muito trabalho. Nada se faz sem trabalho. Aqui, queremos formar campeões, mas também queremos formar homens. Tudo o que vier acima disso vem por acréscimo”, avança, objectivando a próxima temporada. “Vai arrancar a 12 de Julho com os Sub-17 [Juvenis] e terminará a 30 de Junho de 2018. Muita ‘água correrá pelas fontes’. Este ano tivemos uma época fantástica, muitos títulos. Na próxima, vamos tentar ganhar mais, mas não prometo ganhar um, dois, três ou seis. Prometo muito trabalho. Faço tudo o que posso em prol do Clube Desportivo Feirense”, objectiva.

Uma época memorável para o clube que poderá ficar manchada com a descida dos Juniores – escalão pertencente à SAD – aos campeonatos distritais. Apesar de ter, matematicamente, caído dos nacionais, o processo contra o Leixões está em curso e, sabe o CF, bem encaminhado para que os matosinhenses sejam punidos com derrota e consequente descida de divisão. Em causa está a ida irregular do técnico Ricardo Malafaia para a ficha de jogo e banco de suplentes. Sobre os Juniores, Manuel Teixeira, director do escalão, salienta a “equipa fantástica” e critica o formato da competição. “Conseguimos fazer bons jogos e resultados. Tínhamos vários pontos de avanço, mas num campeonato onde os pontos quebram para metade [na Fase de Manutenção], os outros clubes aproximaram-se. Com uma equipa fantástica e um treinador [Tiago Conde] que percebe do assunto faltou uma pontinha de sorte na parte final”, diz.

Sobre o futuro no clube, Manuel Teixeira objectiva fazer parte dos quadros até ao centenário que está aí à porta. “O Feirense faz 100 anos no dia 18 de Março de 2018. Tenho o objectivo de fazer parte do Clube Desportivo Feirense no centenário”, termina.

Futebol de 7: Traquinas A, Benjamins B e Infantis B

Comecemos pelos mais pequenos. O escalão de Traquinas A proporcionou ao jovem treinador João Machado, formado em Educação Física e Desporto, o primeiro título da carreira. A meta era clara desde início. “Estando a representar o Feirense, o objectivo tem que passar, sempre, por ser campeão. Fiz passar essa mensagem aos jogadores desde o primeiro treino”, conta.

As dificuldades na caminhada dos jovens feirenses apareceram apenas na segunda fase. “Na primeira fase não tivemos tantas dificuldades devido à falta de qualidade das outras equipas. Na segunda, houve mais competitividade. As equipas com quem jogámos eram as dez melhores da geração e houve muito equilíbrio nas quatro primeiras posições. Foi uma luta muito equilibrada”, avança o técnico que afirma ser “um orgulho imenso” tornar-se campeão pelo “clube da terra e do coração”.

O escalão de Benjamins B é liderado por Samuel Nunes, timoneiro habituado a levar as suas equipas ao sucesso. Admite, “como é óbvio” a pretensão inicial em dar ao Feirense mais um troféu até porque comandou uma equipa que foi campeã em 2015/16. “O objectivo passava por dar continuidade ao trabalho feito na época anterior. Não foi uma caminhada fácil. Foi uma luta a três quase até ao fim. No último terço ficou entre duas equipas e houve campeonato até à última jornada, até ao último segundo [o Feirense somou mais um ponto que o Gafanha]. Foi uma disputa muito difícil. A conquista sorriu à nossa equipa, mas há que ressalvar a inteira justiça. É um título merecido”, opina.

A receita para o sucesso está, segundo o ‘mister’, nos treinos. “No dia de treino os jogadores têm que sair melhores do que aquilo que chegaram. Se não estiverem atentos e não trabalharem, acabam por facilitar a vida do treinador que toma a decisão de não os convocar. Todos sabem as regras, como funcionam e a sua aplicação”, clarifica.

Ainda assim, atribui o mérito aos seus pupilos. “O trabalho é deles, o sacrifício é deles, a aplicação é deles. Somos [os treinadores] apenas meros orientadores que tentam passar ideias e princípios, embora seja lógico que necessitamos de matéria-prima para trabalhar”. Qualidade não parece escassear. “Há muita matéria-prima. Temos um lote de jogadores que, para nestas idades, já são jogadores evoluídos. Alguns podem singrar no futebol”, admite.

Há quatro temporadas a representar as cores do Feirense, Rui Amorim, técnico dos Infantis B, ajudou o escalão por si treinado a sagrar-se campeão distrital, objectivo esse que não estava delineado no primórdio da competição. “Para ser sincero, tendo em conta que íamos competir com a Casa do Benfica de Estarreja e com o Anadia – campeão em título –, coloquei como objectivo inicial os três primeiros lugares. Claro que, se chegássemos ao último terço do campeonato com a possibilidade, iríamos tentar ser campeões. Com o tempo, os objectivos adaptaram-se”, revela.

Assim, esta “não foi uma caminhada fácil”. “Fomos campeões na última jornada no terreno da Casa do Benfica de Estarreja. Tivemos ainda algumas lesões, mas são contrariedades que ultrapassámos”, avança.

Rui Amorim salienta ainda o triunfo frente ao Anadia à quarta jornada da fase de apuramento de campeão como o momento crucial para o sucesso fogaceiro. “Começámos a primeira fase muito bem e comecei a motivar os meus atletas. Mostrei-lhes que era possível a conquista do título. Se todos dessem o seu melhor, podíamos continuar na senda das vitórias. O jogo em Anadia, na fase final e que vencemos por 2-1, deu-nos moral para aguentar o primeiro lugar até ao fim”, continua.

Por fim, Rui Amorim classifica este título como “muito importante” e “aquele com mais sabor”. “Foi o meu primeiro ano a treinar esta geração que nunca tinha ganho nenhum campeonato”, acrescenta.

Futebol de 11: Iniciados C, Juvenis B e Juvenis A

A equipa mais jovem do futebol de 11 do Feirense, a terceira equipa de Iniciados, também conquistou, contra algumas previsões iniciais, o título de campeã distrital da segunda divisão, sem nunca largar o primeiro lugar. Uma mistura de jogadores entre Sub-15, Sub-14 e Sub-13, respeitou os ideais do treinador Frederico Moreira e ajudaram-no a conquistar o primeiro título da carreira. “Ser campeão foi um objectivo desde cedo proposto pelo clube, mas não foi fácil. Tivemos um ou outro percalço, mas foi um campeonato no qual mantivemos sempre o primeiro lugar. Na segunda fase, disputada por cinco equipas a uma volta, conseguimos as quatro vitórias”, diz.

Os jovens jogadores acataram os princípios de Frederico, algo imprescindível para o sucesso. “Alguns jogadores não treinavam a semana toda comigo, mas tínhamos uma ideia de jogo daquilo que é o Feirense. Quando os jogadores se juntavam em dia de jogo era primordial agregar todos para o objectivo delineado na fase inicial. A importância de conquistar os três pontos e o título” avança, mostrando-se seguidamente satisfeito pela conquista. “Sendo feirense de gema, é uma sensação muito boa conquistar um título pelo clube do meu coração”, termina.

Ano em cheio para o escalão de Juvenis que conquistou os dois campeonatos nos quais as duas equipas competiram. No segundo ano com as cores do Feirense, o treinador Nuno Bastos, com uma equipa saída do Campeonato Nacional de Iniciados em 2015/16, conquistou, finalmente, o primeiro título de Castelo ao peito. Admite o “desnível patente” entre as equipas e lamenta a perda de pontos em dois encontros (empate em Cucujães e derrota com o Macieirense). “Havia três ou quatro clubes com equipas organizadas, mas é preciso evidenciar que o Feirense praticou um futebol muito mais evoluído. Destacou-se pela qualidade técnica e não pelo físico, como é regular observar-se nos campeonatos distritais. É uma equipa recheada de valores que numa segunda divisão tinha que brilhar. Apenas não conseguimos ganhar dois jogos”, avança.

Para o técnico que já conquistou dois títulos pelo Fiães e um pelo União de Lamas e que afirma que treinar o Feirense era um desejo antigo, ser campeão no clube fogaceiro é natural. “A política da casa é ganhar sempre, por isso é natural sermos campeões. Um treinador que passe pelo Feirense e não seja campeão, algo está mal. Foi o concretizar de um objectivo”, conclui.

O escalão de Juvenis A está de regresso ao campeonato nacional uma época depois de ter descido aos distritais. Em 34 jogos, apenas dois deslizes (um empate em Espinho e outro em Arouca) com 132 golos apontados e apenas 16 concedidos. O timoneiro André Teixeira admite que o clube assumiu, no início da temporada, a pretensão em subir de divisão. “Assumi o projecto de recolocar o clube no lugar merecido. Era o único objectivo do grupo. Declarámos que erámos o candidato principal e os adversários sabiam-no. Qualquer outro resultado que não a subida tornaria a época inglória e numa desilusão” revela André Teixeira.

Em modo cruzeiro, o Feirense não passou por dificuldades em atingir a meta e o timoneiro reconhece-o. “Foi uma caminhada que tornou-se fácil com o desenrolar da época. A qualidade do plantel era muito elevada, mas soubemos respeitar os adversários. O objectivo foi consumado muito devido ao compromisso dos jogadores que, independentemente do nome do adversário ou da posição que iam ocupando na tabela, entravam em todos os jogos para ganhar”.

Para o jovem técnico feirense, este “foi mais um título distrital”, mas destaca o “recolocar do clube no patamar onde na época passada foi bastante infeliz”. Sobre o futuro, André Teixeira pretende continuar ligado à estrutura do clube e ao escalão de Juvenis, mas não garante, neste momento, a sua permanência. No entanto, diz que “há quase 90% de certeza” de continuar.

“Somos um clube apelativo que está entre as melhores academias de formação do país”

Embora prefira o termo “orientação pedagógica” para as funções que desempenha, José Carlos Gonçalves opera, institucionalmente, como coordenador para o futebol de sete do clube. Soma, naquele que é segundo ano consecutivo nesta específica função, cinco títulos. Mas afinal, qual é o sucesso do Feirense? “Uma filosofia e um padrão de jogo semelhantes em todos os escalões. Um futebol extremamente competitivo que alicerça-se na imagem do jogador ‘à Feirense’ – na raça, na determinação, no foco e em querer ganhar mais do que o adversário. A isto associam-se os treinadores que sabem ouvir. Comungamos de uma ideia comum e não há ruído de comunicação o que facilita o processo. Os treinadores são inteligentes, sabem ouvir e aprender. Há respeito pelas ideias, quer da minha parte em relação à deles, quer da deles em relação às minhas”, define.

O coordenador coloca, sem hesitar, o Feirense entre as melhores escolas de formação da nação. “Somos um clube apelativo que está entre as melhores academias de formação do país. Isto é motivador para quem vem para o Feirense, mas também exige muito do jogador. É preciso responder às expectativas do clube”, esclarece.

José Carlos Gonçalves salienta o departamento de scouting do clube que, embora não tenha as mesmas capacidades dos denominados grandes, consegue contratar e formar jogadores para a elite nacional. “Temos um grupo que trabalha muito na observação de atletas. O nosso scouting não é tão forte como os grandes, mas conseguimos detectar jogadores que os grandes não conseguem”, diz.

Afirma também que “os títulos não são de pessoa alguma, mas sim do clube”. “Os títulos existentes têm sempre a chancela de todos os treinadores e escalões pelos quais os jogadores passaram. Todos sentimo-nos parte desses títulos. É o conjugar do trabalho de muita gente e, como é evidente, dos atletas com a intervenção directa em campo”.

Por fim, garante disponibilidade para “trabalhar onde o Feirense entenda que é necessário”. “Não estou hipotecado em querer atingir um determinado estatuto nem estou preocupado em treinar quem quer que seja. O Feirense pode contar comigo, dentro das minhas possibilidades, se assim o entender”, termina.

“Faz falta um horizonte no futebol sénior para os jovens da formação”

À semelhança de José Carlos Gonçalves, o coordenador para o futebol de 11, José Fernando, salienta a articulação entre escalões para o sucesso da formação. “Existe um trabalho de articulação e uma sintonia perfeita entre o futebol de sete e o futebol de 11. Formar é vencer e queremos, sempre, que o Feirense alcance os melhores resultados. Desejamos manter o Feirense com uma elevada competitividade e que a formação lute pelos títulos em todos os escalões”, aponta.

José Fernando garante valorizar os títulos conquistados, mas salienta que o “objectivo é projectar o maior número possível de jogadores para o futebol nacional”. “Existem condições de trabalho e vamos manter este caminho. Estamos satisfeitos pelos resultados que nos enchem de orgulho”.

Para o futuro, reitera a importância da criação de uma equipa ‘B’ sénior para dar continuidade à formação e à educação desportiva dos jovens atletas fogaceiros. “É necessário um projecto sustentável para a formação como a criação de uma equipa ‘B’. Temos essa ambição, apresentámos a proposta à SAD, mas neste momento não foi possível avançarem. Faz falta um horizonte no futebol sénior para os jovens da formação”, diz.

Sobre a próxima época, afirma que “90% dos plantéis estão organizados” e que estão a “ultimar-se as equipas técnicas”.

Selecção Nacional chama por três

A brilhante época da formação do Feirense deu frutos. O avançado Rui Bravo e o defesa-central Lourenço Pinto, ambos do escalão de iniciados, assim como o médio Rúben Ramos, júnior, foram convocados para representar a Selecção Nacional nos respectivos escalões.

Relativamente a Rui Bravo, o ponta-de-lança feirense foi já contratado, inclusive, pelo FC Porto. O clube portista segue ainda Lourenço com a pretensão de contratá-lo já na próxima temporada.

A formação do Feirense já atingiu repercussão nacional. Na última época, Bruno Costa e João Lameira – actuais atletas do FC Porto e com passagem pelo clube fogaceiro – representaram as selecções das Quinas no Campeonato do Mundo de Sub-20 e no Campeonato da Europa de Sub-17, respectivamente.

Ao longo dos últimos anos, a formação do Feirense destaca-se também pelos jogadores que têm integrado os seus plantéis profissionais. Nos seniores do clube, foram cinco os atletas que participaram na histórica campanha liderada por Nuno Manta Santos, nomeadamente os médios Cris e Fabinho, preponderantes no xadrez do jovem técnico.

in: jornal CORREIO DA FEIRA
Marcelo Brito

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