segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Fernando Carvalho: Os defeitos do Induraín da Feira que um dia meteu a vitória na cabeça

Fernando Carvalho tinha tudo para ser um dos grandes, mas “arriscava demasiado, dizia muitas verdades e era um mau profissional”. Só em 1990 superou os próprios demónios, vencendo a Volta a Portugal
Fernando Carvalho quando vestia a camisola da equipa da Lousa

Radicado em Espanha, em Ponferrada, a norte de Bragança, Fernando Carvalho observa o ciclismo português com a mesma tranquilidade com que impunha o ritmo e deixava o pelotão a imaginar se não estaria perante um clone de Induraín, o gigante navarro que inspirava o ciclista de São Paio de Oleiros, vencedor da Volta em 1990.

“Podia ter sido grande, podia ter ganho muito mais — tanto prestígio como monetariamente —, mas tinha três defeitos que me impediram de chegar mais alto: arriscava demasiado, dizia muitas verdades e era um mau profissional”, resume, sempre pronto a enfrentar os fantasmas, as montanhas e as injustiças do passado.

“Sempre fui correcto, nunca quis ganhar de qualquer maneira, empurrando ou pisando. Tenho a certeza de que deixei a melhor imagem entre as pessoas do pelotão, especialmente entre os meus colegas ciclistas”, prefacia à procura da definição perfeita das memórias de 1990.

“Sentia que estava muito bem, apesar de alguns problemas que se viviam na equipa”, recorda, referindo-se a uma Ruquita-Feirense bicéfala, que ainda assim dominou a primeira metade da prova, com três corredores a partilharem a amarela.

“O Fernando Mendes era um dos dois treinadores. Era um homem de poucas palavras. Talvez porque lia bem o que ia na alma dos ciclistas e sabia como lidar com cada um de nós. Comigo havia uma empatia enorme. Éramos vizinhos, vivíamos a uns duzentos metros de distância. Isso ajudava-me, porque era muito nervoso”, admite, com a voz a começar a fraquejar.

“Esse ano não tinha sido fácil. Tinha sofrido um acidente antes da Volta e só no último mês pude aplicar-me a sério. Apesar de tudo tinha uma enorme fé de que ia ganhar a Volta”, diz, pronto a narrar as mil peripécias que lhe custaram a amarela na chegada ao Fundão.

“Passámos dois dias muito duros na serra da Estrela. O problema é que a Sicasal tinha sete ou oito ciclistas de altíssimo nível que me moveram um ataque cerrado. Como estava bem, respondia a tudo e a todos e ainda me ficava a rir, a provocá-los. O resultado foi o que se sabe. O Joaquim Gomes foi inteligente, seguiu a minha roda e no Sabugueiro, no terreno dele, foi-se embora. Eu subia bem, mas era mais como o Induraín — impunha o ritmo e lá ia. Ele era um trepador e como andei a brincar com o fogo em vez de fazer o que devia numa situação daquelas, acabei por perder mais de dois minutos... e a camisola amarela no Fundão”, lamenta.

Fernando Carvalho assumiu o erro perante o treinador e construiu, no labirinto psicológico que o tinha derrotado, uma estratégia invencível.

“Esse foi o único dia em que corri mal por falta de cabeça. Como estava bem, forte e confiante tracei um plano. No dia de descanso saímos de manhã para treinar. Almoçámos e foi então que disse ao senhor Fernando Mendes que de tarde ia subir à Torre. Ele só me perguntou se era mesmo isso que queria e como viu que estava determinado pegou na carrinha e partimos” recorda.

“A ideia era ir nas calmas, reconhecer o terreno, analisar as subidas. Mas quando passámos pelas esplanadas do centro, ficou tudo a rir-se de gozo. Então pensei: podem achar piada, mas no fim veremos quem ri melhor. Aí decidi que ganharia a Volta”, relembra.

Quando regressou ao hotel, Fernando Carvalho estava diferente, pronto para cumprir o planeado. Deixou de responder, passou a mandar, a impor o passo, a gerir os momentos e a ganhar tempo.

“Eram uns segundos aqui, outros além até ao contra-relógio da Maia”, onde Carvalho tinha de anular mais de meio minuto para bater Gomes e cumprir o prometido.

O final desta história é conhecido — Carvalho impôs-se a Gomes, vencendo a sua única Volta —, mas nunca mais se repetiu, porque o ciclista natural da Feira se retirou cinco anos depois.

“Havia sempre um lote de dez candidatos muito fortes e mesmo os estrangeiros, que vinham muitas vezes tentar salvar a época — depois da Vuelta, do Giro ou do Tour — não conseguiam impor-se”, lembra. Agora, torce pelo sobrinho António Carvalho, um dos nomes da W52FC Porto, embora não lhe custe reconhecer o favoritismo do espanhol Gustavo Veloso, sem esquecer o líder Raúl Alarcón, nomes de proa numa equipa “fortíssima” que também gostaria de poder desafiar.

in: jornal Público
Augusto Bernardino

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