terça-feira, 8 de agosto de 2017

Henrique Nunes: “Não entrando na Taça Asiática, não fico no Benfica de Macau”

Partilhar campo com o adversário no último ensaio antes de um jogo decisivo. Esta é um das situações insólitas que Henrique Nunes encontrou em Macau. Ainda assim, o icónico treinador feirense conquistou a dobradinha na época passada ao serviço do Benfica de Macau. O seu futuro, e eventual regresso ao clube macaense, está agora dependente da presença na Taça Asiática. Se não se concretizar, deverá dar por terminada uma carreira coroada com três títulos da II Divisão Nacional.
foto: Correio da Feira
O Benfica de Macau conquistou o campeonato e a Taça de Macau. O balanço é naturalmente positivo…

Quando fui para o Benfica de Macau o clube era campeão há duas épocas consecutivas. Logicamente, o grande objectivo era defender o título para podermos disputar a Liga Asiática (AFC Cup). Conseguimos logo no primeiro ano ser campeões, fomos disputar o play-off, ao Quirguistão, frente a duas equipas, e ficámos em segundo lugar, o que nos dava acesso à Fase de Grupos da Taça Asiática como melhores segundos. Mas a Associação de Macau não nos inscreveu dentro dos prazos e acabámos por ficar de fora. Este ano voltámos a ser campeões, embora tenha sido mais difícil do que no primeiro ano. No primeiro ano só tivemos um empate e na última jornada, este ano tivemos uma derrota e ganhámos também a Taça. Ou seja, por direito, agora entramos directamente na Fase de Grupos da Taça Asiática, que sempre foi o meu grande objectivo porque o futebol em Macau não tem a expressão que tem o futebol nacional.

Pelo exemplo que acabou de dar, percebe-se que encontrou uma realidade muito diferente do que estava habituado. Ainda assim, é uma realidade dentro do que perspectivou?

Não. Se quando falaram comigo me têm dito a realidade do futebol em Macau, nunca tinha ido. Acredito que qualquer equipa, entre as melhores da Primeira Distrital, do futebol português têm melhores condições que o Benfica de Macau. Macau luta muito contra a falta de terrenos. Neste momento, o dobro do território que foi conquistado ao mar é tudo para casinos e hotéis. O desporto não tem grandes espaços onde se possa treinar, ainda mais quando eles têm o lema ‘Desporto para Todos’, ou seja, todas as infra-estruturas estão disponíveis para alugar a qualquer pessoa ou qualquer associação, embora estas últimas tenham preferência. A minha maior dificuldade é para treinar, pois não temos tempo nem balneário próprio, as instalações são todas alugadas, o que nos cria muitas condicionantes. A outra dificuldade é o próprio jogador chinês, que não gosta muito de treinar. No Benfica de Macau, que é o clube mais organizado do futebol de Macau, treinamos três vezes e obrigámos que os jogadores tivessem três presenças para poder jogar. Mas mesmo quando não tínhamos treino, íamos para uma pista – comum a qualquer cidadão – fazer um treino, normalmente de 40 minutos. Em termos de programação de uma época é tremendamente difícil. É quase treino a treino porque muitas vezes estamos à espera de 20 atletas para treinar e aparecem 12. É um desafio constante e a adaptação, especialmente nos primeiros três meses, custou-me muito.

Com tantas condicionantes, acredito que tenha algumas situações curiosas.

Por exemplo, o ano passado, tínhamos um jogo importantíssimo para definir o campeão, frente ao Sporting de Macau, e nós estávamos a treinar em metade de um campo de hóquei campo – piso extremamente duro – e o Sporting de Macau estava a treinar, à mesma hora, na outra metade. Isto numa quinta-feira e íamos ter jogo no domingo. Temos muitas situações destas. Por vezes, como tínhamos de marcar o campo, um funcionário nosso ia às seis da manhã para as instalações do IDM – Instituto do Desporto de Macau para marcar uma hora de treino para a semana seguinte. Se chegar mais tarde, por norma não conseguíamos marcar essa metade de campo para treinar. Nesses casos, temos de ir para a pista. Às vezes estávamos duas e três equipas a treinar no mesmo espaço. A comunicação também é um problema, não domino bem o inglês, mas como a nossa equipa é de matriz portuguesa, temos portugueses e macaenses, mas que falam quer o português, quer o cantonês, valho-me deles e torna-se mais fácil.

E aspectos positivos?

É assim, em termos económicos, não estando a ganhar muito, ganho aquilo que em Portugal é impensável. Mas essencialmente, depois de estar a trabalhar em equipa profissionais, foi difícil a adaptação. Nomeadamente, o clube disponibiliza-nos um carro, mas os equipamentos e as bolas andam sempre connosco. Vamos no carro à lavandaria para trazer os equipamentos. Nem nos meus tempos de jogador me lembro de viver este tipo de situações. Em termos culturais é também totalmente diferente, mesmo na forma de pensar o futebol. Por exemplo, depois de um jogo que correu mal ou que perdemos, os locais já não é nada com eles, nós europeus – e tenho alguns, que são profissionais em Macau – sentimos a derrota, temos de ganhar.

Como define a qualidade do atleta macaense?

Tem bons jogadores, mesmo locais, não falando dos jogadores profissionais. Temos um interior direito/avançado centro da selecção de Macau que joga numa das boas equipas de Hong Kong, portanto rumou ao profissionalismo. Eu tenho muitos jogadores que são bombeiros e eles auferem rendimentos na ordem dos 3.500 euros. Portanto, o futebol para eles é um hobby. Não têm a dedicação que nós temos. Mas têm bons jogadores, que a entrarem numa rotina de treino, lavando as coisas a sério, podiam chegar à Segunda Liga com alguma facilidade. O melhor lateral-direito do futebol de Macau [Jerry Chan Man] esteve na Olhanense, no início do ano, e acabou por não ficar. Depois quando falamos em qualidade, a quantidade também é mínima. Têm muito caminho a percorrer, mesmo em termos de selecções. Têm de se habituar a trabalhar ao nível de outros países, mas não, trabalham de uma forma diferente. É uma questão de mentalidade.

Presença na Taça Asiática decisiva para a continuidade

No final da época, afirmou que a sua continuidade no Benfica de Macau depende da presença na Taça Asiática. Há alguma novidade?

Só em Setembro. Já depois de eu estar em Portugal, o presidente entrou em contacto comigo e apontou para essa data. Há requisitos que o clube tem de entregar na Associação de Futebol de Macau e está em causa o cumprimento desses requisitos.

Quais são esses requisitos?

Do meu conhecimento, são três requisitos: haver contractos profissionais com alguns atletas, o que já existe (a maioria são locais, mas temos quatro estrangeiros e dois portugueses com dupla nacionalidade); um orçamento global do Benfica de Macau; e é ter formação e são poucas as equipas que têm. O Benfica de Macau não tem, mas está a fazer uma parceria com uma escola portuguesa para ver qual a possibilidade de ficarmos agrupados. Pelo menos estes requisitos temos de cumprir para podermos entrar na prova.

E se não conseguirem?

Se entrarmos na Taça Asiática volto, se não entrarmos não. A nossa grande intenção era também dar maior visibilidade ao futebol de Macau, mas sabíamos que a única forma de o conseguir era entrando na Taça Asiática, trazer-lhes ao território jogos internacionais. Por exemplo, este ano, num Benfica de Macau – CPK, jogo grande, com eles em primeiro e nós em segundo, estavam 300 pessoas a assistir e é gratuito. No entanto, pouco antes de virmos embora, a selecção nacional jogou frente a Myanmar e estavam 5.000 pessoas no estádio. Há gosto pelo desporto e ele pode ser despoletado. Macau tem uma coisa que poucos têm, tem dinheiro, não tem é o resto, especialmente, as infra-estruturas. Não entrando na Taça Asiática, não fico no Benfica de Macau.

Se não ficar termina a carreira? Está consciente da decisão?

Sim, estou. Estava há um ano sem trabalhar. Quando surgiu esta hipótese decidi arriscar porque é um território que já foi português e poderia ser fácil a integração. A intenção era ser campeão e participar na Taça Asiática, foi sempre esse o nosso grande objectivo, nunca o escondi ao nosso presidente. Queria terminar a carreira com uma competição internacional. Nunca tive empresários, tudo o que conquistei foi pelo meu trabalho, e chegar ao final com uma competição internacional, mesmo que no futebol asiático, a juntar a três títulos da II Divisão [Feirense, Gondomar e Arouca], penso que seria terminar em beleza.

Feirense

O Nuno Manta chegou a trabalhar consigo no Feirense. Como acompanhou a carreira do Feirense na época passada?

O Nuno [Manta], que foi meu adjunto e observador, percebe muito de treino. Era notório. Soube aproveitar como ninguém a oportunidade. Sempre disse que um dos meus objectivos como treinador era um dia conseguir a manutenção do Feirense na Primeira Liga. Não o consegui, conseguiu o Nuno e fiquei extremamente contente, até por ser também um homem da casa, que conhece perfeitamente o clube por dentro. Acredito até que esse foi um factor decisivo para o sucesso, além do trabalho dele, claro.

Para a próxima época as expectativas sobre o Feirense e o Nuno Manta estão muito altas …

No meu círculo de amigos costumo dizer que o Feirense não pode estar agarrado ao que fez na época passada. Para mim, o grande objectivo do Feirense é continuar na Primeira Liga, conseguindo-o faz um grande campeonato. Acho que temos de estar à espera disso (da manutenção) e não de chegar à Liga Europa, penso que seria um erro. Fazer o que o Nuno e os atletas fizeram e a classificação que o Feirense conseguiu em 2016/17 dificilmente será ultrapassado. Espero bem que sim, mas não acredito.

Já viu algum jogo-treino do Feirense?

Vi contra o Boavista e sinceramente, como simpatizante, não gostei do corredor central, nomeadamente dos dois centrais que jogaram. Pareceu-me que com alguma facilidade o Boavista entrava pelo corredor central, até depois do Feirense estar a vencer. Também eram dois centrais novos no clube. Mas também estamos a falar do início da pré-época. Contra o V. Guimarães não pude ver, mas disseram-me que, apesar da derrota, a equipa esteve melhor. Todos gostamos de ganhar, mas as pré-épocas valem o que valem. No ano em que subi, como treinador, pelo Feirense à I Divisão fizemos a apresentação do S. João de Ver e perdemos, fizemos a apresentação do Arrifanense e perdemos, fizemos um jogo-treino, antes do jogo com o U. Leiria (1.ª jornada da II Divisão), contra o Bustelo e perdemos. Chegámos ao primeiro jogo do campeonato e demos 5-1 ao U. Leiria e depois fomos campeões e subimos de divisão. Mais do que ganhar, é importante que os jogadores estejam a assimilar aquilo que nós queremos que a equipa faça.

Eriksson, Carlos Queiroz e o futebol directo do FC Porto de Sérgio Conceição…

Quem foram ou são as suas referências como treinadores?

Enquanto atleta no Feirense, o treinador que mais me marcou foi o Rúben Garcia, com quem subimos à I Divisão. Era um treinador acima da média para a altura. Depois houve alguns treinadores contra quem treinei, nomeadamente o Sven-Göran Eriksson, que era uma grande referência para todos os treinadores daquela geração, não só por aquilo que a equipa [Benfica] jogava, mas também pela sua forma de ser e estar. Gostava também do Carlos Queiroz. Foi o primeiro treinador português a ter uma visão mais alargada do jogo e do treino. Actualmente, há treinadores de que gosto, mas, por exemplo, o tipo de futebol que mais gosto não tem nada a ver com a posse de bola. Hoje, está muito inserido nos treinadores o conceito de posse de bola. Há agora um bom exemplo, dizem que o FC Porto, com o Sérgio Conceição, joga muito directo. Não concordo, joga mais objectivo, mais para o golo e para chegar à baliza do adversário. Eu partilho dessa ideia. O futebol é chegar à outra baliza o mais rápido que se possa, mas claro com possibilidades de êxito. Recuando, tenho treinadores de que gosto como o Guardiola, o Mourinho, o Jürgen Klopp.

Treinou o Pedro Martins no Feirense. Já se percebia que estava ali um futuro treinador?

O Pedro [Martins] não era um jogador veloz, mas era um jogador inteligente, com uma boa ocupação de espaços. Sabia perfeitamente o que tinha que fazer e era ainda muito novo. Até chegou a jogar a ponta-de-lança comigo. Era muito inteligente a jogar à bola, por isso não me admira nada que tenha sucesso como treinador.

Melhores momentos no futebol?

[Risos] Ainda quero guardar um espaço para a presença na Taça Asiática. Tenho dois grandes momentos, um como jogador e outro como treinador. Como jogador foi a subida à I Divisão pelo Feirense. Éramos uma equipa praticamente só com jogadores oriundos do Concelho. Sermos campeões e subirmos à I Divisão foi um orgulho. Como treinador, foi também a subida à I Divisão com o Feirense, na altura do Manuel António, Artur, Quitó, Pinto, Ribeiro, Pedro Martins, Carlos Rui, Quim Zé, Couto, Pedro Miguel. Alguns deles vieram comigo da formação. Treinei os juvenis e juniores e subimos aos nacionais e depois acabei por tomar conta da equipa sénior. Alguns desses atletas foram importantes na subida do Feirense. O Feirense é sem dúvida o meu clube do coração. Gosto imenso da Feira e do Feirense. Como jogador nunca conheci outro clube.

in: jornal CORREIO DA FEIRA
Nélson Costa

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