segunda-feira, 11 de junho de 2018

“Não havia margem para erros, mas a relação no Feirense foi espetacular e com resultados”

foto: jornal Correio da Feira
Susana Torres, mental coach (alta performance em desporto)

Como é que alguém de Gestão e que trabalhou 14 anos no setor bancário vem parar ao coaching desportivo?
Tive uma carreira na banca, saí como subdiretora num Banco, mas sempre tive uma paixão por pessoas e por criar impacto nas pessoas. Na altura que fui estudar para a universidade, a área dos Recursos Humanos era muito técnica, ou seja, era muito processamento de salários, leis de trabalho e não tinha nada a ver com aquilo que eu idealizava que era os recursos humanos, a liderança, trabalhar o comportamento e atitude das pessoas. Então acabei por não ir para Recursos Humanos, que era a área que mais se aproximava com aquilo que eu queria fazer, e fui para Gestão.
A entrada na Banca é uma curiosidade. Um diretor do BCP acaba por me conhecer numa conhecida cadeia de lojas de retalho, na área dos produtos culturais e eletrónicos, e convida-me a trabalhar no Banco e fiquei lá 14 anos, mas sempre com o ‘bichinho’ de fazer mais.
Sempre fui uma pessoa muito curiosa, em Portugal o Coaching não estava muito desenvolvido e comecei a procurar no estrangeiro informações sobre a área. Comecei a fazer, lá fora e ainda na Banca, cursos e formações e comecei a ter os primeiros clientes, alguns da Banca (empresários). Até que decidi que queria fazer só isto.
Deixei o setor bancário, houve um período, de um ano, que ainda tive a certificar-me. Fui para Londres, onde estive com o John Grinder, que é o criador da programação neurolinguística. Demorou mais um pouco porque queria fazer isto ao mais alto nível, queria fazer um trabalho em condições até porque o coaching era muito conotado a algo pejorativo.
Por casualidade, conheci o Eder, num jogo do Braga. Levei os meus dois filhos mais velhos (na altura, eram muito pequenos) a ver um jogo. Depois a história está contada no meu livro [Vai correr tudo bem!]. No final, o Eder e a minha filha Rita conheceram-se, ele pegou nela ao colo e eu pedi para tirar uma fotografia. Acabámos por nos conhecer, o Eder pediu-me a fotografia, eu disse-lhe que era Coach. Ele mostrou curiosidade e depois começámos a trabalhar.
Começa aí a minha ligação ao desporto, em dezembro de 2014. A transformação do Eder foi tão grande e imediata, em atitude e comportamento, mesmo com os colegas e com o treinador do Braga, que na altura era o Sérgio Conceição, que outros jogadores começaram a perguntar-lhe o que ele estava a fazer. O Eder começou a dizer e passei a trabalhar com vários jogadores. Eles partilhavam a informação entre eles, eu nem tinha, na altura, uma página de redes sociais para divulgar o meu trabalho.

O que faz um coach, concretamente alguém ligado à alta performance no desporto ou ao mental coach?
O coaching em geral é um processo em que o coach ajuda o coachee (cliente) a passar de um ponto A para um ponto B, ou seja, de onde ele está (situação) para onde gostaria de estar (objetivo). Estou numa situação e quero outra. O coach explora caminhos que à partida a pessoa não está a conseguir explorar sozinha. Faz-se na base de perguntas específicas, na área do Coaching chamam-se as ‘perguntas poderosas’, que pressupõem esta mudança, de ‘abrir o leque’ e começarmos a olhar para outras perspetivas.
O Coaching tem tudo a ver com perspetiva e com mudança de perspetiva. O que eu fui fazer foi o Coaching de Alta Performance. Comecei no desporto porque foi onde comecei a ter muitos resultados, eu adoro a parte do desporto porque temos resultados imediatos. É um impacto muito grande o que me fascina. Quando trabalho com empresários não é assim. Medimos resultados de três ou de seis em seis meses. A mudança comportamental dentro de uma empresa é muito mais complexa, tudo leva mais tempo.
A Alta Performance tem tudo a ver com desporto porque é uma questão de mentalidade, para vencer, para atingir resultados. E o Coaching nem sempre é sobre resultados, às vezes é sobre a pessoa aceitar o que tem, conseguir ser feliz com o que tem. Quando trabalhamos em Alta Performance trabalhamos na melhor versão de nós próprios, esta é a frase chave do Coaching de Alta Performance. O que posso dar, vou dar no limite, é uma mentalidade muito à Cristiano Ronaldo. O que posso melhorar para conseguir ter mais rendimento, mais resultados.
É o que nós trabalhamos e tem tudo a ver com desporto porque em desporto ninguém aceita um segundo lugar. É uma área única porque a maioria dos coach afasta-se dos resultados porque se não forem alcançados o coach fica implícito neles. Eu assumo esse risco, às vezes até nos pagamentos.

Por outro lado, os treinadores não ficam com receio de, em caso de sucesso, os resultados ficarem implícitos ao Coach?
A primeira questão dos treinadores é essa. Aliás, o primeiro treinador com quem trabalhei em Portugal foi com o Sérgio Conceição, no Braga. O Sérgio notou dedicação e performances nos treinos fora de normal, no Eder. A determinada altura, o Eder disse-lhe o que estava a fazer e o Sérgio quis-me conhecer. Aconteceu na última semana do campeonato 2014/15. Tinham acabado de jogar com o Sporting, tinham o V. Setúbal para a última jornada, e depois a final da Taça de Portugal também com o Sporting. Conheci-o após eles terem perdido 4-1 com o Sporting e o Sérgio Conceição, que não gosta mesmo nada de perder.
Ele estava alterado, zangou-se com a equipa, no estilo dele, que agora não é tão visível, e isso passou para a equipa. O que o Eder fez foi ir ao gabinete dele e dizer-lhe: “Está-me sempre a perguntar o que eu ando a fazer, eu digo-lhe sempre que não é nada, mas acho que chegou a altura de lhe dizer porque acho que você também podia beneficiar com isso”. É difícil imaginar o Eder a ter esta conversa, mas aconteceu porque o objetivo que estávamos a trabalhar era ir para a Premier League. Era o último jogo dele e não tinha nada a perder e disse. Nesse mesmo dia, o Sérgio disse que queria falar comigo. Fui ter com ele ao Porto, às 20 horas e falámos duas horas. Ao final de duas horas, o Sérgio convidou-me a ir ao Braga falar com os jogadores, antes do jogo contra o V. Setúbal. Trabalhei com eles três dias e ganharam 5-0.
Depois de ser despedido do Braga, quando chega a Guimarães ele volta a recorrer à minha ajuda, de forma mais prolongada. E a principal preocupação do Sérgio era que quando as pessoas descobrissem que estava a trabalhar com eles, que começassem a associar os resultados ao meu trabalho. Eu disse-lhe: “Imagina que pegavas na tua equipa e ias fazer um estágio a Inglaterra, e que nesse estágio tinha uma componente em que eles tinham treinadores ingleses e que chegavas à conclusão que era importante eles saberem inglês. Eras tu que os ias ensinar?”. E ele disse: “Não, chamava um professor de inglês”. E eu disse que era exatamente a mesma coisa.
Trabalhámos a mente para ele poder fazer o seu trabalho de uma forma muito mais eficiente. Isto fez todo o sentido para ele, soube como podia explicar. Mas tenho outras experiências. Tenho muitas conversas com o Jorge Jesus. Há um ano, no “Future of Football”, fui oradora e notei claramente que ele achava que podia ser colocada em causa a sua liderança.
Os treinadores podem pensar que a determinado momento os jogadores podem passar a respeitar-me mais do que ao próprio treinador. E isso pode acontecer, especialmente com um jogador que esteja em conflito com o treinador, mas o meu papel é mudar estas situações, é fazer que o relacionamento com a equipa seja bom e produtivo. 

E como é a coabitação de um mental coach com um psicólogo, uma figura que também está cada vez mais presente nas equipas de futebol?
É a única figura que tem estado nos clubes, no futebol, e especialmente noutras modalidades. Eu acredito que os trabalhos são complementares. Há uma ‘guerra’ muito grande entre os psicólogos e os mental coach, mas eu estou completamente à margem disso porque não me envolvo nessas ‘guerras’ e, principalmente, porque acredito no meu trabalho, é único e não há ninguém em Portugal a fazê-lo da forma como eu faço e com o processo que eu utilizo porque é um trabalho que eu importei dos Estados Unidos e com o melhor coach de alta performance do mundo, o Brendon Burchard, que teve programas, por exemplo, com o ex-presidente dos Estados Unidos, o Barack Obama e com a Oprah Winfrey.
Há uma ‘guerra’ e até um processo em tribunal colocado pelos psicólogos, que querem que o coach passe para o seu domínio. O que eu acho que está a acontecer é que o coach tem resultados, e o psicólogo é algo mais contínuo. Penso que são áreas que se tocam, mas que são complementares. O ideal seria que o psicólogo e o coach trabalhassem em conjunto.
A nós só importa o que está para a frente. Aliás, no caso do Eder, se eu levasse em conta o que ele passou, o passado dele, o facto de ter sido abandonado pelo pais (embora agora se queiram reaproximar), que era o que provavelmente um psicólogo exploraria, iria perder o meu foco e energia, e também o dele, e certamente não teríamos resultados. Estaríamos focados nos problemas e o nosso trabalho é perceber os processos para atingir um objetivo. É mais de ação.

Trabalho no Feirense 


Como acontece a cooperação com o Feirense?
Começou com um telefonema de alguém ligado à SAD. Tive uma reunião no Estádio [Marcolino Castro] com a SAD e com o treinador, Nuno Manta. De quem foi a ideia não sei, mas há jogadores do Feirense que eu conheço, nomeadamente o Babanco porque trabalhei com a seleção de Cabo Verde, e o Babanco é o capitão, e o Tiago Gomes que é um amigo da família, conheci-o no Braga. Não sei se surgiu a partir deles ou desta pessoa da SAD que me contactou.

Quantos meses trabalhou no Feirense?
Dois meses. Começámos no jogo do Boavista, que o Feirense ganhou 3-0. Comecei três dias antes desse jogo. Foi a vitória que fez a mudança. Aliás, era para começar a trabalhar com eles na segunda-feira a seguir ao jogo. O objetivo era a manutenção, mas eu olhei para o calendário e o Feirense ia defrontar o Porto, o Braga, o Guimarães e vi que não era fácil.
Todos me diziam que era impossível, que era um caso perdido, mas eu estou sempre a ver o outro lado. Pensei que tinha de começar antes do jogo do Boavista porque precisávamos de o ganhar. Liguei para a SAD e disse que não havia tempo para pensar.
Ainda não tinha resposta e eles ainda não tinham aprovado valores. Então, propus trabalhar com eles para o jogo do Boavista e que depois decidiam se queriam trabalhar comigo ou não, se não quisessem não pagavam nada por aqueles dias. Para mim, para aceitar o trabalho era muito importante começar antes daquele jogo e ganhá-lo. Acredito que tenha sido o ‘click’ para eles aceitarem. Comecei logo no estágio com eles – fiz sempre os estágios com o Feirense. Foi um trabalho essencialmente coletivo e com o treinador.

Como foi trabalhar com o plantel do Feirense e com o Nuno Manta?
Foi muito interessante. O impacto daqueles primeiros dias foi grande e depois eu conhecia alguns jogadores e eles, para o bem e para o mal, ‘minam-se’. Os que me conheciam influenciaram positivamente o balneário. O Babanco, por exemplo, é muito influente. Mesmo quando não os conheço, eu deteto imediatamente quem são os elementos mais influentes e agarro-os. Foi um trabalho muito incisivo, sem margem para erro. Sabíamos quais os jogos em que podíamos errar.

“Nuno manta é um excelente treinador”


O que parece ter influenciado o Nuno Manta porque ele falava muito, nas conferências de imprensa, dos jogos que tinham mesmo de vencer…
Sim. Penso que ele estava um pouco perdido com aquilo que estava a viver. Ele tem muito boas ideias, é um excelente treinador, faz coisas que não vejo mais nenhum treinador fazer, mesmo ao nível motivacional e como utiliza e gere o tempo nos estágios, que acho que toda a gente deveria parar para pensar no que o jogador está a fazer.
Acham que o que o jogador gosta é de descansar e até podem gostar, mas não é o mais produtivo. Mesmo mentalmente, excesso de descaço, de quarto, é algo que lhes faz muito mal, e o Nuno Manta já contraria muito isto.
Fiquei muito surpreendida com isso. Mas ele já estava a viver muito o momento. Por exemplo, disse-me que já fazia muitas das coisas que provavelmente eu iria fazer, mas que com ele já não estavam funcionar. Era preciso alguém de fora e penso que ele tinha razão.

Foi fácil trabalhar com o Nuno Manta?
Sim. Na primeira reunião penso que estava um bocado desconfiado, provavelmente pelo que já falámos, sobre tirar-lhe o protagonismo.
Mas depois expliquei-lhe o meu papel, também lhe dei muitas ferramentas para ele mudar muita coisa da forma como ele comunicava e atuava com os jogadores e começou logo a ver resultados. A relação foi espetacular, aliás com todos e com resultados. Trabalhámos muito em conjunto.

É possível retomar uma colaboração com o Feirense?
Gostava muito de dizer-lhe que sim, enquanto pessoa gosto muito de manter as relações. Não é uma lei, não digo que não posso alterar este pensamento, mas tenho um princípio no futebol de não trabalhar uma época toda num clube.
Não quero ficar agarrada e associada a um clube. O Jesus dizia-me que se eu um dia trabalhasse com o Sporting depois como podia trabalhar com um jogador como o Jonas [Benfica], como geria isso? Gosto de fazer intervenções ‘cirúrgicas’, de poucos meses. Com os jogadores já não é assim, trabalho com eles o tempo que for necessário.

“Jorge Jesus é um autêntico professor”


Com que jogadores e treinadores já trabalhou?
Posso referir as que são públicos, os que não são não o faço por uma questão de respeito, só se eles revelarem. É o caso do Jonas, que é um caso muito particular porque ele fazia mesmo questão que fosse muito sigiloso (só sabia eu, ele e a mulher dele, nem os pais sabiam), mas ao fim de algum tempo a ter resultados, a marcar consecutivamente, ele próprio sentiu necessidade de partilhar. O jogador é grato, mas também sentem essa necessidade porque percebem que eu não lhes vim dar nada. Eu não fui ensinar a jogar futebol a um jogador como o Jonas. Para já não tinha competências para isso e depois é um jogador que já é brilhante.
Só lhe dei outra perspetiva. Mostrei-lhe o que ele podia fazer para ter os resultados que queria. Também trabalho com o Rony Lopes, do Mónaco. Comecei a trabalhar com ele na pré-época passada. É outro exemplo de um jogador que já era muito bom, já fazia tudo, que segue muito o Cristiano Ronaldo. Gosto muito destes jogadores. Só precisamos de ‘apertar alguns parafusos’ e os resultados explodem. Fernando Varela, um central da seleção cabo-verdiana que joga na Grécia, também trabalho pontualmente e devo voltar a trabalhar. E o Eder, claro.
Neste momento, não estou a trabalhar com nenhum treinador, mas já trabalhei com alguns em Portugal. Durante uma época, gosto de trabalhar com um ou dois treinadores, até porque aprendo imenso com eles, com as nossas conversas. Vou buscar informações que depois são muito úteis para resolver algumas questões.
O treinador com quem mais aprendi foi o Jorge Jesus, ele explica-me tudo, é um autêntico professor. As nossas conversas, às vezes, duram três horas. Falo do Jorge Jesus, mas não trabalhei efetivamente com ele, não foi uma questão profissional, mas criámos uma amizade grande, é um coaching informal. Mas as nossas reuniões são num espaço público, à frente de toda a gente.

Da atual seleção nacional que vai disputar o Mundial trabalha com algum jogador?
Trabalho com um jogador, mas não posso dizer o nome.

Já falou com o Eder depois da (não) convocatória para o Mundial?
Não. O Eder tinha um objetivo muito grande que era ir ao Europeu e ter um impacto enorme. Foi um Europeu muito impactante para ele e penso que serviu muito para ele fazer as pazes com toda a gente que o criticava.
Aprendeu a ser decisivo, e esse ‘chip’ foi criado no Braga, em que jogava nos últimos minutos de jogo. Começou a marcar no pouco tempo de jogo que tinha até ganhar a titularidade. Começou a fazer a diferença em pouco tempo e ficou ‘programado’ para isso.

Acredita que ele vai ultrapassar bem a não convocatória?
Perfeitamente. Acredito que tenha ficado chateado ou magoado. Dentro dele, e até de muitos portugueses, há a ideia de que ele merecia ir. Deu-nos o Europeu. Mas viu que outros, que também ajudaram na conquista do europeu, também ficaram de fora e isso deve ajudar a ultrapassar a situação.

Continua a contactar com o Eder?
Não, mas o meu marido sim, que está na área de gestão de fortunas num Banco e o Eder é cliente dele desde 2014. Deixámos de trabalhar depois do Europeu. O impacto do Europeu foi muito grande e ele quis cortar muito com as ligações e relações.

Que projetos tem para o futuro na área do coaching?
O ambiente de seleção, a mim, é o que mais me motiva, e a razão é muito simples: porque é pontual. Eu gostava de trabalhar em seleções, não necessariamente na portuguesa, até porque já trabalhei com outras e domino várias línguas. Ativamente não estou a fazer nada para que isso aconteça, mas acredito que um dia possa acontecer.
Da minha preferência, as seleções estariam sempre em primeiro lugar relativamente a um clube. Ainda assim, nos clubes gostaria de trabalhar em todos, desde que o meu trabalho faça a diferença, mas em momentos pontuais. Gosto muito de trabalhar com os clubes que estão mais em cima e mais abaixo na tabela.
Além disso, acabei de lançar uma plataforma online de cursos em que ensino o que faço com os jogadores. O primeiro curso já foi lançado e versou sobre o trabalho feito com o Rony Lopes. O objetivo é fazer chegar a Alta Performance e o treino mental a todos os jogadores. Estas estratégias são transversais a todas as modalidades desportivas, bem como a todas as outras áreas. Eu também faço trabalhos com empresas e empresários.

in: jornal CORREIO DA FEIRA
Nélson Costa

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